• Alexia Hoppe

Segurança alimentar em tempos pandêmicos

Atualizado: Mai 26





Recentemente, foram publicados os resultados de uma pesquisa realizada em dezembro de 2020 pela Rede Brasileira em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), com apoio da ActionAid, Friedrich Ebert Stiftung, Ibirapitanga e Oxfam. Esta pesquisa, intitulada “Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil”, apresenta um novo mapa da fome no Brasil. A crise econômica, política e sanitária no país permitiu que chegássemos a números alarmantes.

Segurança alimentar, de forma resumida, é o amplo acesso regular e permanente ao alimento, em quantidade e qualidade adequadas; é quando um indivíduo não precisa abrir mão de outras coisas para adquirir alimentos para o dia a dia da sua família. Há também o conceito contrário: a insegurança alimentar, que pode ser classificada em leve, moderada e grave. Esta última caracteriza a condição de fome, como estabelecido pela EBIA – Escala Brasileira de Insegurança Alimentar. Esta escala tem sido aplicada pelo Governo Brasileiro desde 2004.


Para mensurar a insegurança alimentar em plena pandemia, a Rede PENSSAN aplicou a EBIA em dezembro de 2020, questionando famílias sobre seu consumo de alimentos nos 3 meses anteriores à entrevista. Os resultados mostram que o grau de insegurança alimentar aumentou muito durante a pandemia de COVID-19. Foram entrevistados 2.180 domicílios das cinco regiões do país, tanto em zona urbana quanto rural – o que caracteriza uma amostra probabilística representativa da população brasileira, possibilitando assim a comparação dos resultados com pesquisas anteriormente realizadas. Destes domicílios, apenas 44,8% estão em segurança alimentar. Isto quer dizer que 55,2%, cerca de 117 milhões de brasileiros, estão em situação de insegurança alimentar, sem acesso permanente e pleno a alimentos. Dentre eles, em situação grave – caracterizando fome – encontram-se 19 milhões de brasileiros (9%). Ou seja, 1 em cada 10 brasileiros está passando fome!


Desde 2004 muitas ações e políticas sociais foram aplicadas para diminuir a insegurança alimentar brasileira, culminando, em 2014, com a saída do Brasil do Mapa Mundial da Fome da ONU (Organização das Nações Unidas), fato muito comemorado pelo CONSEA - Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Na ocasião, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada em 2013 identificou o menor nível de insegurança alimentar grave no Brasil desde o início da aplicação da EBIA: cerca de 4% da população.

Mais adiante, em 2018, a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) identificou que 36% dos domicílios apresentavam algum grau de insegurança alimentar. O que vemos é que, em pouco mais de 2 anos, houve um aumento expressivo no número de brasileiros que estão passando fome; os números de 2020 superam os registrados no início da década passada. O resultado atual mostra a aceleração da insegurança alimentar no Brasil, que já vinha crescendo antes mesmo da pandemia se instaurar, graças a instabilidade econômica e a desmobilização das políticas públicas de segurança alimentar, como por exemplo a extinção e posterior recriação do CONSEA.


Em termos de regiões, a região Norte do país é a que apresenta o maior índice de insegurança alimentar grave: 18,1%; praticamente 1 em cada 5 pessoas está em situação de fome. Em seguida encontra-se o Nordeste, com 13,8%. Centro-Oeste apresenta 6,9%. Já Sul e Sudeste têm o menor índice, 6%. A composição familiar dos entrevistados também foi analisada: famílias chefiadas por mulheres estão mais propensas a encontrar-se em insegurança alimentar. O mesmo acontece com questões étnicas: residências habitadas por cidadãos autodeclarados pretos e pardos também se encontram em situação mais vulnerável. Ainda, aspectos relacionados à formação educacional também afetam fortemente o índice de segurança alimentar. Famílias cuja renda per capita é de pelo menos 1 salário mínimo não apresentam índices de insegurança alimentar nem moderada, nem grave. Isto, no entanto, não os exclui do grau leve de insegurança alimentar: são famílias/cidadãos que, devido à crise provocada pela pandemia de Sars-CoV-2 perderam o emprego, ou deixaram de ter renda garantida, e podem ter acabado por optar por alimentos de menor preço, fácil acesso e baixa qualidade nutricional, o que não deixa de acarretar algum grau de má nutrição, já que futuramente estarão mais propensos à obesidade e diabetes, entre outras enfermidades diretamente relacionadas à nutrição, denominadas Doenças Crônicas Não-Transmissíveis.


O acesso à água, a chamada insegurança hídrica, também foi mensurado na pesquisa em questão. Em pleno 2020, 40,2% dos domicílios no Nordeste e 38,4% na região Norte não possuem acesso à água potável, afetando diretamente a alimentação dessas famílias, além das condições sanitárias, tão importantes de serem reforçadas em tempos de disseminação do Coronavírus.


Ações governamentais como o auxílio emergencial são essenciais para garantir que boa parte das famílias brasileiras mantenha-se em segurança alimentar. Cidadãos comuns, eventualmente são tocados por estes números, porém não sabem como contribuir. Buscar por ações de apoio organizadas pela sociedade civil (ONGs, associações de moradores, coletivos de ativistas, entre outros) é uma primeira forma de auxiliar, mesmo sem depender da sua renda. Existem, por exemplo, “aplicativos solidários” que convertem pequenas ações e/ou cliques em doações de alimentos. O Instituto Fome Zero, iniciativa fundada em outubro de 2020 pelo professor José Graziano da Silva, ex-diretor-geral da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), vem ao encontro dessa lastimável situação em que se encontra a sociedade brasileira. Nós, do Instituto Comida do Amanhã, somos parceiros do Instituto Fome Zero e acreditamos que a segurança alimentar e nutricional no Brasil precisa ser combatida com seriedade. Com o término do auxílio emergencial, os números tendem a piorar, mais famílias serão atingidas pela fome. Esperamos que a apresentação destes dados alarmantes resultem em mais iniciativas robustas para redução da insegurança alimentar no Brasil.


Referências:

VIGISAN 2021. Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil. Pesquisa realizada pela Rede Brasileira em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, disponível em: http://olheparaafome.com.br/VIGISAN_Inseguranca_alimentar.pdf

PNAD 2014. Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios: síntese de indicadores 2013, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv94414.pdf

POF 2018. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018: primeiros resultados, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101670.pdf


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Sobre a autora:

Alexia Hoppe é Engenheira de Alimentos e Doutora em Administração. É pesquisadora independente e atua como colaboradora em projetos relacionados à indústria de alimentos no Brasil e agronegócios, sendo suas principais áreas de pesquisa: cadeia global de valor, marketing, inovação e certificações, desperdício de alimentos e sustentabilidade.

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