• comida do amanhã

Crise alimentar: vai faltar farinha no meu pão? Alguns desafios, urgências e reflexões. (parte 1)


PARTE I: O que é a crise alimentar e o que políticas públicas podem fazer? Estamos vivendo tempos desafiadores. O imprevisível e inimaginável virou um novo cotidiano e nos desorientamos um pouco na rota e no que vem depois. Nossa comida reflete isso mesmo - Foi declarado por algumas das mais prestigiadas organizações multilaterais, (OMS, OMC e FAO) conjuntamente, que estaríamos no momento vivendo um risco grande crise alimentar global, decorrente do cenário de pandemia do COVID-19. Neste texto tentaremos resumir o que de fato uma crise alimentar significa, porque ela estará acontecendo e o que reflete na vida da população. O que é uma crise alimentar? Podemos descrever de forma simplificada que uma crise alimentar é, essencialmente, uma crise de acesso a alimentos. Pode ser provocada pela falta de alimentos (disponibilidade) ou pelo aumento de preços, que torna os alimentos menos acessíveis. Portanto pode haver uma redução quantitativa (quando efetivamente se produz menos, ou quando menos alimentos chegam ao consumidor) mas também qualitativa (quando a maioria dos alimentos consumidos são de baixo valor nutritivo, provocando má nutrição da população e dietas deficitárias). Entendendo sistemas alimentares como uma cadeia de atores, prática e dinâmica, podemos entender que quando um elo da cadeia se enfraquece ou deixa de agir de forma efetiva, os demais sofrem as consequências e todo o sistema pode entrar em crise: a nossa comida depende de ser produzida, transportada, armazenada, processada (em algumas situações), embalada, distribuída, consumida. Em cada uma dessas etapas temos uma série de fatores que precisam estar coordenados para que o sistema seja o mais eficaz possível. Quando um deles entra em crise, os demais seguem junto.


Quais os motivos possíveis da crise? Entendido o sistema alimentar e sua co-dependência, podemos dizer que várias são as fontes dessa possível ou provável crise. Um dos motivos mais falados é a possível consequência global de redução de acesso à comida, provocada por restrições no comércio internacional de alimentos - em especial, quando países restringem suas exportações de alimentos e direcionam a produção ao consumo interno , sob o argumento de garantir uma segurança alimentar interna (Turquia, Cazaquistão, Vietnã, Rússia, por exemplo, estão fazendo isso). No entanto, modelos econômicos indicam que ao invés de garantir essa segurança alimentar interna, as restrições à exportação de alimentos geram insegurança alimentar no nível global, considerando que nem todos os países podem garantir uma