• comida do amanhã

Crise alimentar: vai faltar farinha no meu pão? Alguns desafios, urgências e reflexões. (parte 2)

PARTE II: Impactos no dia a dia e lições aprendidas - pensar no longo prazo a partir de AGORA

na prática, no dia a dia, depois da pandemia - terei farinha para o meu pão? Para falar de risco de faltar farinha para o pão, precisamos nos localizar no globo.

Os riscos de acesso aos alimentos no Sul e nos países com maior desigualdade social pode ser agravada e mais evidente não porque falte o trigo - que esse risco é baixo como vimos - mas porque o acesso aos alimentos frescos, nutritivos ( frutas, legumes, pescados, enfim, comida de verdade, que nutre e garante saúde à população, respeitando o direito constitucional de alimentação adequada (CF, art. 6º)), pode se tornar cada vez mais difícil pela subida potencial dos preços ou porque eles simplesmente não chegam a todas as prateleiras. Esse risco vem sendo apontados por órgãos como a FAO (ONU) e outros observatórios como o IFPRI .


Isso acontece porque produtos perecíveis e que dependem de maior quantidade de mão-de-obra para produção têm mais risco de se perder na pós-colheita ou sequer chegarem a ser colhidos, e/ou terem sua logística de distribuição encarecida. Voltando ao cenário brasileiro, podemos imaginar que os produtores familiares que terão suas vendas prejudicadas este ano pelos efeitos da pandemia muito provavelmente não plantem a mesma quantidade para a próxima safra, o que vai reduzir a oferta de alimentos. Esse será talvez o grande dilema do cenário agrícola pós-Covid-19 e que devemos nos questionar quando pensamos sob o aspecto da alimentação da população... qual a vantagem de ter safras recordes de cana, soja, milho e demais commodities agrícolas e não termos hortifrutícolas em quantidade e economicamente acessíveis à população?


Vale notar que num artigo recente sobre como os países devem responder aos riscos que a pandemia provoca a seus sistemas alimentares, a FAO recomenda em primeiro lugar expandir e intensificar programas de proteção social e assistência alimentar, e logo em seguida apoiar agricultores familiares, tanto em sua capacidade produtiva quanto no acesso aos mercados. A resolução dos gargalos do sistema alimentar, como os setores de logística de distribuição interna e de logística portuária e a redução de mão-de-obra no campo vêm em seguida e por último, manter o comércio internacional de alimentos aberto . Essa priorização das recomendações nos faz ter mais clareza sobre onde estão os maiores desafios.