• Mónica Guerra Rocha

Tranças de milho


Quando te sintas triste menina- dizia a minha avó- entrança o cabelo, prende a dor na madeixa e deixa escapar o cabelo solto quando o vento do norte sopre com força.

O nosso cabelo é uma rede capaz de apanhar tudo, é forte como as raízes do cipreste e suave como a espuma do atole.

Paola Klug

Cortei os cabelos há alguns anos atrás. Curtinho, joãozinho, como chamam por aqui. A infância toda tive cabelos longos, que a minha mãe enfeitava com adereços que combinavam com as roupas. Agora, eles cresceram, e o que mais sentia saudade era de poder entrançá-los.

Quando tudo se transforma e a impermanência bate insistente em cada passo, recorro à rede. Aos afetos, aos amigos, aos amores, às meditações, os gatos, as flores, os tachos, a feira, os cheiros, os sabores. Quando tudo se transforma e não sei mais o que vem depois, recorro ao sonho e encaixo o medo por baixo do braço, levo-o comigo, cuido e acarinho, solto-o quando vem o vento Norte. Queria muito aproveitar uma festa junina e invadir-me de milho. Comprei a canjica e fui inventar de fazê-la pela primeira vez, enquanto tocava um forró e eu dançava pela cozinha. Sem experiência, não imaginei que aquela porção viraria uma panela gigante que eu não daria conta de comer. Convidei amigos, arrumei a casa, aprontei a mesa, preparei quentão, fiz bolo de Fubá, leite de amendoim, e a canjica foi temperada em versão vegana. Fiz a paçoca com amendoim e rapadura, enfeitei o coração. Olhei o espelho e os cabelos já longos me pediram uma trança. Divididos em três partes fui enrolando, acarinhando, e aprisionando no meio deles toda a solidão de uma canjica ainda sem visita.

A festa junina no Brasil resulta do encontro entre as celebrações jesuíticas chegadas com os colonos que celebram as colheitas do solstício de verão com os rituais indígenas da colheita do milho que se dá por esse período. É uma celebração do alimento, da terra, do que se colhe, do que se planta, da ponte entre dois mundos onde eu sigo morando.