• Mónica Guerra Rocha

Tem maçã e leite de coco


“E sou já do que fui tão diferente Que, quando por meu nome alguém me chama, Pasmo, quando conheço Que ainda comigo mesmo me pareço.” Luís Vaz de Camões

Se tem algo que eu acho que sempre sei muito pouco é sobre a história e memórias da minha mãe. Ela nasceu em Moçambique, viveu lá até completar 20 anos e foi para Portugal no contexto da guerra da independência onde, inclusive, conheceu o meu pai. Tenho Guerra no nome, no DNA, na história, mas junto com esse passado que poderia dar em si mesmo um c

onjunto de reflexões, tenho também uma memória distante que me vai sendo passada em doses homeopáticas, repetidas, de cada vez que ela abre um pouco desse lugar que eu sempre imagino mas nunca cheguei a ver.

Recordo de ela falar de Moçambique com doçura e saudade, de como foi feliz por lá, de celebrar ter nascido em terra onde tudo dá, de lamentar os rumos da história e sempre terminar dizendo: “um dia compro passagem só de ida e fico por lá”. Lembro de me falar da escola, dos amigos da escola, de um amor deixado no aeroporto, das mangueiras pela rua onde podia pegar fruta do pé. Ela nunca se acostumou realmente com Portugal, e até hoje recorda com nostalgia a vida em África.

IDENTIDADE

Participei esta semana de uma roda de conversa onde se falava sobre identidade, particularmente afro-identidade e a relação dessa origem com o alimento e com o nutrir do mundo. Eu, portuguesa, descendente desse lugar histórico da colonização e todo o massacre associado, fiquei amedrontada e honrada de poder participar nessa discussão. Respirei fundo e busquei lá dentro onde eu poderia encontrar a minha identidade. Eu tenho muito pouca relação com a gastronomia portuguesa – ser nascida em Portugal não me fez amante de bacalhau ou sardinha, e não trago nada (além do azeite e