• Alba Cánovas

Cutucando a ferida da carne fraca


Eu, que normalmente me preocupo com alimentação, fico analisando o meu feed de notícias das redes sociais e fico sabendo das novidades pelos portais de informação que também estão alinhados com essas perspectivas: permacultura, agroecologia, alimentos orgânicos, culinária, desperdício de alimentos etc. Tenho consciência de quais amigos e amigas nas redes estão também engajados e com qual causa. Mas aí, de repente, começo ver várias pessoas, que normalmente não se pronunciam com respeito àquilo que comem, compartilhando uma notícia que tem revirado o estômago do Brasil inteiro: a operação Carne Fraca.

E é assim porque atingiram o coração do brasileiro. Aliás, esses corações foram atravessados por um enorme espeto, para sermos mais literais. O país é um grande produtor, exportador e consumidor de carne. A carne aqui é um alimento sagrado, intocável, ritual do fogo, de reunião, de confraternização. Eu acredito que o cidadão se sentiu traído no nível mais pessoal possível, na esfera mais íntima. É como se mexessem na cerveja ou no futebol, pois teria xilique garantido – bem ao contrário do efeito de mexer nos direitos trabalhistas, mas isso merece um artigo à parte.

Tive vários pensamentos a respeito. Por um lado, é bom que o sistema comece a se sentir atacado e cada vez mais casos de corrupção e fraude venham à tona para discussão pública, trazendo novos debates. Por outro, ainda relacionado com o anterior, é uma pena que o cidadão nunca se questione sobre muitas questões que lhe afetam diretamente e quando estes casos emergem causam essa sensação de desilusão, traição e decepção.

Começou o debate aberto nas redes. Parecia que em poucos segundos, a notícia tinha viralizado. Realmente, brincar de corrupção com o alimento é também brincar com a saúde pública. Estamos falando de um problema gravíssimo. Depois, a notícia já virou até piada de como é que a população ainda continua viva ou com saúde. Mas, afinal, esta história surpreende por quê? Acredito que para os engajados, isso não surpreende mais. Para os desinformados, deu um baque. O sistema já vem dando claros sinais que está agindo na beira do que é legal e o que é lícito. A mesma máquina do agronegócio, que alimenta e lucra com bois, é a mesma que cultiva o combo semente transgênica + agrotóxico. Que queima florestas da amazônia para cultivar a ração dos mesmos bois. Pensemos no sistema como um todo.