• Mónica Guerra Rocha

O mimo do morango


Eu ficava sempre acordada até o último respiro de sono me combater só para esperar que ele chegasse.

O meu pai sempre saiu de casa antes que eu acordasse, chegava quase sempre depois de eu dormir. Naqueles dias que eu conseguia esperá-lo, reconhecia o som do carro assim que entrava no prédio. Fazia mentalmente o caminho dele: para o carro, abre o portão, estaciona, desliga o motor, fecha o portão, a porta do elevador, 2 andares, fecha a porta, vira à esquerda, chave na fechadura e o meu coração batia muito mais forte.

Junto com ele e os beijos coreografados que dávamos, quase todos os dias o meu pai trazia no ombro direito uma caixa de papelão. Ficava ansiosa que a caixa fosse colocada na mesa para eu poder ver o que tinha, pendurada na pontinha do pé.

Meu pai toda a vida teve uma mercearia. Aquela mercearia do bairro, que a vizinhança frequenta, que recebe correspondência de alguns, vende pão, dá conselho familiar a outros, vende azeite, é ponto de encontro de conversas, vende vinho, frutas, verduras, sabonete, caderno escolar, jujuba, amendoim. Eu sempre achei a mercearia do meu pai o lugar mais importante daquele bairro, quase da cidade inteira, talvez do mundo. Tinha tudo, tudo, tudo.

No fim do dia ele vinha para casa com aquela caixa no ombro. Dentro, os itens da lista que a minha mãe ditava para ele no começo do dia ou pelo telefone, no meio da tarde. Recheava o armário, alimentava a minha imaginação.