1200 primaveras

December 8, 2017

 

E quando eu tiver saído

Para fora do teu círculo

Tempo Tempo Tempo Tempo

Não serei nem terás sido

Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

 

Caetano Veloso, 1979.

 

 

Completei ontem 33 primaveras.

Acho sempre mais interessante contar os anos como se fosse uma sequência de estações, até porque o calendário que conhecemos, gregoriano, é relativamente novo para a humanidade: contávamos o tempo com base nos ciclos naturais, com pontos marcantes nos equinócios e solstícios, quatro grandes blocos das 4 grandes estações, e 13 luas de 28 dias. O nosso tempo é o tempo da terra.

 

Em grande parte dessas 33 voltas do Sol, acreditei que tínhamos controle sobre o mundo. Que tudo o que queremos poderia ser conseguido, que a humanidade seria super poderosa e capaz de saber mais sobre as coisas todas do mundo. No meio do caminho foi ficando confuso: sabendo tanto e podendo tudo, porque é que as coisas não eram sempre melhores? Em 33 anos entendi que sabemos muito pouco, podemos demais, somos obcecados por controle, exploramos, absorvemos, não regeneramos. Inventamos a sustentabilidade ainda dentro de um olhar que divide as partes e junta em coisas que querem se parecer com seres. Às vezes parece que achamos que a forma de melhorar as coisas é pegar no universo e desmembrar a complexidade. Temos medo do desconhecido e do complexo, aprendemos pouco com o passado, não fazemos planos para além de nós. É interessante, como fazemos de tudo para viver para sempre mas vivemos como se não acreditássemos no que pode vir amanhã, ou no que fica depois que a morte chega: agir indiferente para o que é maior do que nós pode ser um ato de supremacia e poder.

 

 

Oliveira

1200 anos. E ainda dá azeitonas. Se cuidarmos dela e lhe dermos carinho, ela vem carregada de azeitonas, 1200 anos depois. - Contava-me a Ana, oleóloga, que faz do amor pelo azeite uma coisa de todos os dias.

1200 anos. 240 gerações. Quantas guerras? Quantas vidas? Quantos amores e perdas? Quantos países em um país, quantas histórias?

 

A oliveira mais antiga da herdade do esporão (que tem um perímetro fixado desde o século XIII em Reguengos de Monsaraz, no sul de Portugal) tem, aproximadamente 1200 anos. Pode chegar a 1300, uma variação aproximada que, na vida de uma oliveira, pode estar 100 anos a mais, 100 anos a menos.

Não se sabe como chegou até ali, mas sabe-se que se for cuidada pode atingir mais de 3000 anos. Mudança climática, chuvas, verões, 1200 primaveras de honra, de amor. Quase morre e renasce, quase exuberante e se acanha, retorna com azeitonas ano após ano.

Olhando-a, vendo-a renovar-se e mostrar-se mágica, quase quase tímida, pergunto-lhe o que será a maior qualidade, o segredo da eterna juventude em forma de galhos, folhas, frutos, vida: resiliência.

 

Uma oliveira de 1200 anos me fala como se fosse a bisavó que nunca conheci. Vejo nela todas as ancestrais de todas as mulheres que antes de mim traçaram o relógio do tempo da terra. Ela conta-me sobre abandono e indiferença, sobre permanência e cuidado, sobre apego e carinho, sobre maternidade. Uma árvore impossível de abraçar sozinha, que me fala sobre sol e ciclos, sobre ter de se recolher para retornar, sobre escutar para expandir. Fala-me sobre evoluir, esperar, conter, concentrar. Tem dentro dela o melhor azeite do mundo, e maior sabedoria do segredo que toda a humanidade almeja: permanece, em serenidade e abundância, resiliente e magistral, respeitada e reconhecida. Uma oliveira de 1200 anos fala-me sobre luta e luto, sobre terra e lua, sobre tanta coisa que se vai, tudo o que vira pó, e o pó que vira tudo. Sobre gente e ganância, terra e abundância.

 

Sobre integridade e humildade. Saber-se inteira, velha, rugosa, potente, inviolável, regenerativa e maravilhosa. Sobre rugas que valorizam e frutos que amadurecem no pé. Sobre a riqueza de tudo isso e o medo de que tudo isso acabe.

 

Uma oliveira de 1200 anos fala-me sobre cada um de nós, somados, adicionados e envolvidos numa teia de respeito e encontro. Sobre tantas mãos que a tocaram, sobre as mãos que a semearam e esperaram o primeiro broto surgir. Sobre cada oferenda, cada azeitona. As que viu caídas no chão e as que colheram antes da hora. E ela, permanecendo ali, transformando a energia da terra em alimento.

 

Entendi que já nos vimos antes, que vimos afinal do mesmo lugar, mas que eu fico menos tempo, que tenho mais impaciência e sei escutar menos do que o necessário. Entendi que antes de cada azeite existe uma história que pode ser milenar e que milhares de histórias vêm concentradas, engarrafadas em forma de líquido cor de ouro: entendi afinal porque é que o azeite é cor de ouro.

 

Muito antes de ela nascer, contou-me, na Grécia antiga, Atena e Poseidon desejavam uma cidade para que pudessem gerir. Enquanto forma de desempate, Zeus, pai de Atena, desafiou cada um a que apresentassem algo que fosse de utilidade para os habitantes dessa cidade. Poseidon trouxe seres do mar e cavalos, para que os habitantes pudessem se deslocar e fazer trocas comerciais. Atena por sua vez trouxe como oferenda métodos de domesticação de cavalos e uma muda de oliveira. Com ela, alimentaria os habitantes por milênios, num ciclo de regeneração. E assim, Zeus entrega-lhe a cidade que vai se chamar Atenas. A oliveira nasce mitologicamente como o símbolo da vitória do cuidado, do amor, do alimento, da resiliência, do feminino. Por isso os atletas olímpicos eram representados com folhas de oliveira sobre a cabeça, como sinal de honra e resistência, celebrando Atena e sua oferenda.

 

Toda a vida tive azeite por todo o lado. Nasci e cresci num país que se orgulha dos sabores, que passa entre gerações livros de cozinha e de histórias. Toda a vida tive a história do mundo no prato, regando as batatas assadas, e agora sei porque é que isso por si só trazia mais sentido para as coisas banais da vida. Completei 33 anos. Trouxe do esporão uma garrafa de azeite. Brindei com vinho verde, molhei o pão no líquido de ouro. Como é bom ser infinito.

 

 

Comemos o mundo que aprendemos.

 

Milan, 15 Agosto 2017.

 

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