Alana e os Cogumelos

 

“Cogumelos são misteriosos. Quem pode dizer se não chegará o dia em que a ciência conseguirá
medir as exóticas energias dos fungos, talvez até mesmo calcular nossa dieta mínima necessária de
calorias lunares?”

O dilema do onívoro – Michael Pollan

 

"…que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem
barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a
coisa produza em nós."

Manoel de Barros

 

 

(Demorei para começar a comer cogumelos. Achava-os estranhos, separava do molho, ficavam no prato. Lembro perfeitamente da primeira vez que os aceitei, investiguei de perto, cheirei, experimentei. Adorei e nunca mais voltei a olhá-los da mesma forma. Cogumelos são seres estranhos, vamos combinar. Não dá para confiar muito, não dá mesmo. Identificar frutinhas, verduras, até as folhas comestíveis são por norma menos ameaçadoras do que escolher cogumelos pela floresta. E depois tem a textura, tem o sabor, tem a forma, a proteína toda, o veneno, a Lua.)

 

Vinda da minha aula de violão, passei na porta da loja que tem vários produtos asiáticos. Os cogumelos tinham acabado de chegar e eu estava com muita vontade de um sabor diferente. Levei uma bandeja de portobello junto com algumas bananas e gengibre que estavam com uma cara ótima.

 

Chegando em casa...

 

– Onde foste?
– Aula de violão.
– O que tem nessa sacola?
– O Jogo do adivinha o que é!

 

Tirei as bananas: jogo fácil. O gengibre deram uma olhada, uma cheirada, chutaram pimenta – bola na trave. Tirei a bandeja de cogumelos.

 

– E isso?
– Não sei. Nunca vi uma fruta dessas.
– Cogumelos!

– Eca!

 

Eca é uma ótima deixa para começo de conversa. Traduziria a sigla ECA para um Estou Curiosa Agora.

 

– Eca porquê, Alana?
– Não gosto de cogumelos.
– Mas achavas que era uma fruta, certo? Se não é fruta o que é?
– Não sei. Nasce da árvore?

 

Expliquei que um fungo é um serzinho que faz da morte, vida. Que os cogumelos conseguem transformar a morte em vida. Ela começou a ficar mais curiosa, e quis saber mais. Perguntei porque comíamos as coisas, – para ficar fortes. Sim, comemos para ter a energia. E essa energia vem de onde mesmo? – Do Sol.

Comemos as coisas porque é a forma que temos de comer um pedacinho do Sol. Perguntei:

 

– Podemos comer o Sol?
– Não né? Ele está muito longe!

 

Bingo. Comemos o Sol quando mordemos a manga ou a banana, ou a alface e a couve do almoço. O pai, cozinhando enquanto conversávamos ia olhando de soslaio e participando da conversa:

 

– É o Sol que faz as coisas crescerem.
– A banana é um pedacinho de Sol?

 

Disse-lhe que sim com o olho mais arregalado. Por isso a natureza e os alimentos gostam tanto do Sol, porque eles estão se alimentando dele e virando comida.

 

– Mas sabes uma coisa? Cogumelos não gostam de Sol, eles crescem de noite, gostam de sombra e de escurinho.

Rosto desconfiado. Uma coisa que é um nome esquisito, que faz da morte vida e cresce no escuro. Alana tem 5 anos e as coisas já não se digerem tão fácil assim.

– Então os cogumelos não são pedacinho de Sol para a gente comer?

 

Semana passada ela me chamou empolgada e me levou pela mão até a varanda para olharmos a lua. Cheia, redonda, uma bolota. No dia seguinte eu não estava de noite e contei que fui numa ilha encontrar outras mulheres para fazermos meditação para a Lua e o útero, que é onde os bebês crescem dentro da barriga. Ela não perguntou muito nesse dia, mas o olho estranho era o mesmo quando lhe disse:

 

– O que está no céu quando fica de noite, Alana?
– Hmm, a Lua!
– Então … cogumelos são a nossa forma de comer um pedacinho da Lua.

 

Falamos da energia da Lua, que não esquenta o corpo nem a terra mas que faz as ondas do mar nunca pararem. Que faz às vezes ficarmos com um humor estranho sem entender por quê, como se tivéssemos um mar dentro da gente. Falamos das fases da Lua, do Sol que quando adormece por aqui acorda em outro lugar. Falamos de ciclos e de dias, de noites, de florestas. Alana e eu, afinal, falamos só de cogumelos. Mas ao falar de cogumelos, falamos de astronomia, gastronomia, gravidade, fotossíntese, sistemas ecológicos, vida, decomposição, renascimento, impermanência, feminino. Podíamos ter falado de proteínas, carboidratos, vitaminas, Podíamos ter falado de veneno, de anticorpos, de defesas naturais. Ou poderíamos ter entrado a falar da ásia, de culturas de cogumelos, de história. Podíamos ter falado de quantos cogumelos tinha na embalagem, da cor dos cogumelos.

 

Podíamos ter falado de quase qualquer coisa, enquanto falamos de cogumelos. Alana teria escutado tudo, interessado, perguntado, como ela sempre faz. Viajamos as duas nessa fantasia, assim como ontem, que trouxe uma pitaya para casa e pedi que ela e a irmã de 2 anos imaginassem a cor da polpa e o tamanho da semente. Inventaram 2 pitayas novas e ficaram depois apaixonadas pelo tom rosa que deixava a boca colorida e os lábios com tom de batom.

 

Alana não provou os cogumelos, mas na escola contou que cogumelos são formas de comer a Lua. Ela diz que ninguém entendeu muito bem, mas alguém deve ter pensado mais sobre isso.

 

A comida é uma ferramenta de máximo poder. Em vez de falar de alimentação em escolas, de educação alimentar, acredito no alimento como educação, como aula em si mesmo, como oportunidade de falar de tudo na experiência, no contato, no afeto. Alana pode nunca gostar do sabor de um cogumelo, mas vai sempre lembrar do saber que ele lhe traz. E saber e sabor, afinal, vêm do mesmo lugar.

 

Todos somos educadores, temos essa oportunidade em cada refeição, em cada ida à floresta, à feira, na casa dos avós, no caixa do supermercado. E a fantasia, a imaginação, a curiosidade são cúmplices desse lugar delicioso de fazer do alimento o adubo que faz o universo ser maior dentro do coração.

 

 

O que comemos é o mundo.

 

 

 

Rio de Janeiro, 15/05/2017

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