• Maria Eduarda Lemos e Diogo Tomaszewski

O efeito da pandemia de COVID-19 no comportamento alimentar dos brasileiros

Atualizado: 22 de dez. de 2021


Antigamente era a macarronada o prato mais caro. Agora é o arroz e feijão que suplanta a macarronada. São os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. Até vocês, feijão e arroz, nos abandona! Vocês que eram amigos dos marginais, dos favelados, dos indigentes. Vejam só. Até o feijão nos esqueceu. Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo. Quem não nos despresou foi o fubá. Mas as crianças não gostam de fubá.Livro: “Quarto de Despejo: Diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus.


“Quarto de Despejo”, mesmo publicado em 1960, ainda permanece atual. Quando ligamos a televisão, acessamos algum aplicativo do celular, lemos a página inicial do jornal de hoje ou de ontem e assustadoramente em cada manchete, é possível ver o desabafo de Carolina. Como se estivéssemos vivendo uma realidade paralela à desta mulher negra e periférica, elas se encontram e se chocam, provocando a necessidade de se colocar à mesa problemas sociais que antes nos passavam muitas vezes despercebidos.


Com inflação, preço dos alimentos decola de janeiro a novembro de 2020: arroz fica 70% mais caro, e o feijão, 40% | Foto: Gani Nurhakim, via Unplash

Contexto

As crises social e política vividas nos últimos anos agravaram-se ainda mais com a pandemia do Covid-19, e o Brasil - que já sentia a constante alta dos preços dos alimentos, a vulnerabilidade social, a fome e a pobreza - entrou ainda mais na contramão do caminho para atingir a erradicação da fome e o desenvolvimento de uma agricultura sustentável até 2030. É importante destacar também que antes mesmo da pandemia de Covid-19, outras pandemias globais (obesidade, desnutrição e mudanças climáticas) já existiam e tinham fatores sociais comuns entre si, formando uma “sindemia” que compromete diretamente os sistemas produtivos de alimentos, saúde da população e as políticas públicas.


O termo sindemia é um neologismo que combina sinergia e pandemia, cunhado pelo antropólogo médico Merrill Singer nos anos 90, para explicar uma situação em que duas ou mais doenças interagem de tal forma que causam efeitos negativos maiores do que a junção dessas duas doenças.