• Mónica Guerra Rocha

Duzentas e sessenta e seis luas

Atualizado: Jan 8


“Todos os seres vêm preparados para cumprir a sua tarefa, movidos pelo prazer profundo e pelo amor incondicional.”

Ernst Götsch

Tinha 12 anos. Não era tabu mas também não era outra coisa. Eu iria sangrar. Todos os meses durante muitos anos. Ia doer e ia doer todos os meses por muitos e muitos anos.

Eu ia ter a cara com pintas, o corpo com pêlos, o sovaco com cheiros, a gaveta com absorventes coloridos. Eu ia ter dias que não ia saber o que fazer, que o absorvente não estava e o banheiro não ia chegar a tempo.

Eu ia ter vergonha, muita vergonha. Por muitos meses, muitos anos. E nunca deixaria de doer, nunca deixaria de esconder os absorventes, não iria falar sobre isso publicamente, não iria me orgulhar disso. Um dia talvez eu não sangrasse e não doesse, e talvez isso durasse 9 meses e mais um pouco. Aí seriam outras dores e outras batalhas. Mas até lá, ia doer.

No inicio não sabia como vinha nem quando vinha, então ter sempre absorventes e parafernálias de lenços humedecidos comigo seria algo interessante a considerar.

Fui levando a vida. 12 anos e já era mulher, e por ser mulher deveria me comportar como tal – dizia o mundo. Cruza a perna, não fala alto, sê a melhor aluna, se comporte em público. Não fale nunca, jamais, sobre o sangue que escorre pelas coxas e te banha o ventre por dentro todos os meses. Jamais faça isso. Sangue não se fala, se esconde. E isso é para sempre, todos os meses, até quando o mundo te chamar de velha porque não sangrarás mais.

Teve o dia na colônia de férias, 1996. Mergulhei na piscina, primeiros dias, primeiros amigos, gargalhadas depois do banho de piscina, deitada naquela canga branca – essa é a única peça de roupa que tenho memória desse período.

Secava no Sol. Lembro que tinha um menino, Renato, que eu gostava e que achava que ele gostava de mim também. Ficava ansiosa quando ele estava perto e feliz quando recebia as cartas de amor que me escrevia.

Secando no sol, levantei da canga. Tremi, gelei inteira - aquela mancha vermelha no centro da minha canga branca.

Não devia ter trazido aquela canga.

Não devia ter entrado na piscina.

Não devia ter me esquecido dos absorventes.

Não devia sequer imaginar que alguém como o Renato iria gostar de alguém que sangra, que mancha cangas e sangra em público.

Não deveria ter nascido mulher.

Não, não, não.

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NÃO.

Não.

Não mais.

Duzentas e sessenta e seis Luas. A cada 28 dias eu, e Ela, mudamos tudo e recomeçamos. Eu sangro, ela escurece. Duzentas e sessenta e seis vezes me escondi de mim. Tive vergonha.

Um ser estranho, punição sagrada essa de sangrar e doer e não ser vista. Duzentos e sessenta e seis silêncios.

A cada 28 dias as marés mudam, a semeadura e colheita acontecem, a terra regenera, a floresta uiva, o mundo abre lugares côncavos e húmidos para receber em seu berço a mulher selvagem, a que sangra e sente. A que nutre.

O sangue lunar, de 28 em 28 dias, é uma fonte viva de nutrientes da terra. O sangue lunar é mais potente e rico de alimento para as raízes do mundo do que qualquer outro alimento. O sangue lunar é o primeiro alimento que nós, em nosso serviço sistêmico podemos entregar. A cada 28 dias tinha no ventre a oportunidade de entregar à terra essa energia lunar que se regenerava dentro de mim. E eu escondia. Eu e milhares de outras mulheres, de outras naturezas lunares e selvagens que se escondem, que lamentam seu sangue e sua condição feminina no universo. Somos nutridoras de florestas, cíclicas e regenerativas, circulares e selvagens, somos todas bruxas.

Dessa bruxaria que conhece os segredos de artemísias e identifica cores no vento, que sentimos em nossos corpos as nossas sementes, nossos folículos, nossos frutos. Geramos vida, todos os dias, e recomeçamos diferentes a cada 28 dias depois. Ferro, força, floresta. Temos dentro de nós florestas inteiras, somos inteiras seres da floresta. Temos dentro de nós oceanos, somos ainda anfíbias na alma. A cada 28 dias mais cheiros, mais cores, mais sons. Instinto e caos dentro do corpo. Um óvulo não fecundado vem para fecundar a terra, porque somos unidade com esses ciclos irrepetíveis.

duzentas e sessenta e seis luas depois, tenho uma horta em casa, tenho o mundo como o quintal onde me permito dançar. Duzentas e sessenta e seis luas depois, olhei e vi que em mim existe uma ponte que liga a Lua às raízes do mundo, e que essa ponte é vermelha e rica em nutrientes. Duzentas e sessenta e seis Luas depois, me nutri desse privilégio, um oceano invadiu meus olhos quando entendi que sempre fui mágica, uma magia que me envergonhava e que eu queria ignorar. Na lua menstruada, olhei e escutei, e vi nela a floresta e o oceano inteiros. Entendi que existia uma inteligência escondida que precisava acontecer na sua função mais simples, no amor incondicional que faz com que metade do planeta humano, essa metade feminina, tenha o poder de nutrir a terra, de alimentar a Mãe que nos deu a vida. Entendi que feminino é sinônimo de força e de ciclicidade. Duzentas e sessenta e seis Luas entendi que carrego um pedaço da Lua dentro de mim. Que honra, que encantamento!

E nesse entendimento, vi que manter florestas em pé e cuidar de nossos o

ceanos, acolher os gritos dos rios, respeitar os ventos, é a urgência de cuidar de nossos femininos.

Dilui essa Lua que saía do ventre.

Reguei minha horta que floresceu mais forte. Eu e ela somos uma só. E essa inteligência, que existe em outro lugar onde linguagem não alcança, é o que nos vai fazer regenerar, outra e outra vez.

Nutrindo, mudamos o mundo. Somos o que acolhemos em nós. Somos lunares.

Rio de Janeiro, 02.02.2018

Mónica

* Este texto e estas reflexões são possíveis e potencializadas por toda a aprendizagem e troca que Isabella Sousa e o Coletivo Menstruadas trazem. Agradeço, reconheço e atribuo crédito de várias portas que se abrem.

Para saber mais, siga a página do facebook @menstruadas.

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