• Mónica Guerra Rocha

Duzentas e sessenta e seis luas

Atualizado: 8 de jan. de 2020


“Todos os seres vêm preparados para cumprir a sua tarefa, movidos pelo prazer profundo e pelo amor incondicional.”

Ernst Götsch

Tinha 12 anos. Não era tabu mas também não era outra coisa. Eu iria sangrar. Todos os meses durante muitos anos. Ia doer e ia doer todos os meses por muitos e muitos anos.

Eu ia ter a cara com pintas, o corpo com pêlos, o sovaco com cheiros, a gaveta com absorventes coloridos. Eu ia ter dias que não ia saber o que fazer, que o absorvente não estava e o banheiro não ia chegar a tempo.

Eu ia ter vergonha, muita vergonha. Por muitos meses, muitos anos. E nunca deixaria de doer, nunca deixaria de esconder os absorventes, não iria falar sobre isso publicamente, não iria me orgulhar disso. Um dia talvez eu não sangrasse e não doesse, e talvez isso durasse 9 meses e mais um pouco. Aí seriam outras dores e outras batalhas. Mas até lá, ia doer.