• Mónica Guerra Rocha

Sem açúcar, com afeto.


“O problema com o nutriente-a-nutriente da ciência da nutrição é que leva o nutriente para fora do contexto de alimentos, os alimentos fora do contexto da dieta e a dieta para fora do contexto do estilo de vida” Marion Nestlé

A Vó Nanda tinha aquele dom de ficar junto, acarinhar os corações, aproximar as crias sem apertar, doar sem pedir nada em volta. Baixinha, com o avental sempre a postos no peito, falava manso e pouco, sorria mais com o olhar do que com os lábios.Sempre que eu ia visitá-la fazia bolo de laranja.A casa ficava perfumada, a Vó Nanda deixava eu sentar no colo dela e suspirava.

Sempre comi bem, em quantidade e em qualidade. Gostava um pouco de tudo, muito de algumas coisas. Preferia sopa à pizza, bolo de laranja a chocolates, água a refrigerantes. Gostava do café da manhã, amava almoços, não abria mão da fruta no meio da tarde e vinha o caminho da escola pensando no jantar. Fiz o meu primeiro arroz cedo e fiquei fascinada com a magia que acontecia:água, sal, azeite e arroz viravam comida.

SEM AÇÚCAR

Minha mãe, com mais de um oceano de distância, vira e mexe me envia umas receitas para eu testar. Tudo o que é vegano ou possivelmente mais saudável, ela recomenda e me pergunta se experimentei depois. Entre palitos de cenoura no forno, assados de abobrinha e maioneses veganas, recebi dela algumas receitas de bolo.

A primeira era um “Bolo de chocolate sem lactose ou gordura trans”, depois o “Bolo de chocolate sem ovos e glúten”. O primeiro tinha nove ingredientes na massa, quatro na cobertura. Mas de todos, só o chocolate era anunciado. O sem ovos e glúten tinha lactose e gordura trans, mas não se falava muito sobre isso.