• Mónica Guerra Rocha

A comida do amanhã


O meu réveillon de 2015 foi na Bahia. Depois de alguns dias em Cumuruxatiba, decidimos visitar Caraíva com o passeio completo – o barco pelos corais, parada em Corumbau, buggy pelas dunas, carroça puxada por cavalo. Tudo era absolutamente novo, encantador, quase intocado, não fosse as dezenas de turistas que como eu, ficavam boquiabertos com tanta beleza.

No final do primeiro trecho do caminho, chegados a Corumbau, era hora de almoçar. Tínhamos pouco tempo até subir no buggie, e desconhecíamos completamente o lugar. Vegetariana há mais de 16 anos, fui-me acostumando em encontrar alternativas alimentares por onde fosse, adaptando a fome à oferta, às vezes ajustando a oferta à demanda específica – “nem frango moça?”. “Nem frango.”

Não era difícil, e na verdade, até tornava a minha decisão sempre a mais simples de tomar. Não tendo muita opção acabamos por escolher rápido e ficamos felizes com o que nos trazem.

Em Corumbau tinha um restaurante pé na areia onde o grupo decidiu ficar. Tinha uma mulher vendendo umas saladas pela praia que me interessaram, mas todas elas com frango. No restaurante podiam resolver a minha demanda fazendo um sanduíche – pão francês, queijo, manteiga. Alguns anos atrás eu não pensaria duas vezes e esse seria o meu almoço, e ficaria feliz de me entender eticamente mais responsável que os demais, reduzindo no possível o nível de sofrimento embutido naquela refeição. Mas naquele dia foi diferente, e em Corumbau eu não comi pão e queijo.