A comida do amanhã


O meu réveillon de 2015 foi na Bahia. Depois de alguns dias em Cumuruxatiba, decidimos visitar Caraíva com o passeio completo – o barco pelos corais, parada em Corumbau, buggy pelas dunas, carroça puxada por cavalo. Tudo era absolutamente novo, encantador, quase intocado, não fosse as dezenas de turistas que como eu, ficavam boquiabertos com tanta beleza.

No final do primeiro trecho do caminho, chegados a Corumbau, era hora de almoçar. Tínhamos pouco tempo até subir no buggie, e desconhecíamos completamente o lugar. Vegetariana há mais de 16 anos, fui-me acostumando em encontrar alternativas alimentares por onde fosse, adaptando a fome à oferta, às vezes ajustando a oferta à demanda específica – “nem frango moça?”. “Nem frango.”

Não era difícil, e na verdade, até tornava a minha decisão sempre a mais simples de tomar. Não tendo muita opção acabamos por escolher rápido e ficamos felizes com o que nos trazem.

Em Corumbau tinha um restaurante pé na areia onde o grupo decidiu ficar. Tinha uma mulher vendendo umas saladas pela praia que me interessaram, mas todas elas com frango. No restaurante podiam resolver a minha demanda fazendo um sanduíche – pão francês, queijo, manteiga. Alguns anos atrás eu não pensaria duas vezes e esse seria o meu almoço, e ficaria feliz de me entender eticamente mais responsável que os demais, reduzindo no possível o nível de sofrimento embutido naquela refeição. Mas naquele dia foi diferente, e em Corumbau eu não comi pão e queijo.

Uma barraquinha simples montada do lado do restaurante tinha a Joana, sua panela, um sorriso e acarajé. Cheguei perto e conversamos – Joana sempre ficava naquele lugar, vendendo o acarajé que ajudava nas contas da casa, na escola da filha que ficava sentada nos olhando. A receita da massa de feijão era da sua mãe, que a ajudava no preparo. O camarão era pescado na região, pela comunidade de pescadores de Corumbau. O leite de coco artesanal, deixava tudo com um tom rosa. O dendê sabemos, é a Bahia em forma de óleo.

Olhei o restaurante pé na areia.

De onde viria a farinha branca do pão francês? Quantos quilômetros teria viajado o queijo, quem teria vendido, que Joanas estariam nesse caminho? No final do dia, quem fecharia o caixa e pagaria as suas contas? Quem dedicaria o recurso para a escola dos seus filhos? 16 anos depois, troquei o pão francês pelo acarajé brasileiro. Pedi a Joana que dispensasse o camarão frito, eu ficaria feliz sem ele.

Quem alimenta o que me alimenta

Corumbau ensinou-me que o que decidimos colocar no prato tem origens e consequências muito anteriores, e que seguem muito depois da digestão ser feita. O alimento é o elemento mais poderoso de transformação e reflexão sobre o que desejamos para o mundo, o que decidimos acreditar e priorizar, a realidade que queremos construir. A ética de comer ou não comer animais, naquele dia, foi colocada na balança junto com o empoderamento, com o fortalecimento da comunidade pescadora local, com o respeito e honra pelo ecossistema e biodiversidade da região, a distância percorrida pelos alimentos e todos os impactos que isso acarreta para o meio ambiente, a herança cultural que inventou o acarajé, o sorriso da Joana.

Naquele dia não fez sentido nenhum qualquer outra opção que não fosse essa –uma decisão muito simples de tomar, mas resultado de uma equação mais complexa do que o paladar, o desejo, a oferta imediata. Naquele dia comi muito mais que um acarajé, disse não a muito mais do que um pão e queijo – agindo politicamente na decisão do que comer.

Entendi que comemos o mundo que queremos. Comer o quê, de quem, vindo de onde, a que custo, são perguntas que, uma vez colocadas podem transformar o nosso lugar no planeta, a sociedade em que vivemos, o corpo que habitamos.

Somos 7 bilhões, seremos 9 bilhões em 2050. Tem alimento para todos no planeta, tem recursos, mas falta colocar as perguntas certas para as respostas chegarem como solução. A comida do amanhã é o maior ato político. 7 bilhões, 3 vezes por dia, 21 bilhões de escolhas a cada 24 horas.

Descobri que sabia tão pouco do que comia. Dizem que é aí que está o lugar da transformação e da grande mudança, quando visitamos o lugar do que não sabíamos que não sabíamos:

40% dos empregos do mundo estão na agricultura – a maioria são mulheres. 70% dos alimentos na mesa do brasileiro provêm da agricultura familiar, que detém apenas cerca de 25% das terras aráveis. De todos os alimentos produzidos no mundo 30% são perdidos ou desperdiçados, e essa quantidade seria suficiente para acabar com a fome no mundo. Sabia disso?

A comida do amanhã é a comida democrática e não demagógica, da consciência e da relação, da reflexão e do respeito.

Temos um poder imensurável, que não sabemos que temos. Ao decidir o acarajé, o pão francês, o queijo importado, a carne vermelha, o peixe embalado no isopor iluminado, colocamos tabus no prato e votamos pelo que acreditamos. Votamos na Joana e na escola da filha, na biodiversidade local ou no desmatamento, no lixo industrial ou no composto orgânico, no acúmulo de capital ou na sua distribuição, na herança cultural ou no modelo externo. Mordida após mordida, garfada por garfada.

O que vamos comer amanhã?

*texto publicado em http://www.oquinze.com.br/gastronomia/a-comida-do-amanha/

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